O treinador da Black Bulls, Nelson Santos, considera que o modelo de jornadas combinadas adoptado no Moçambola deste ano exige uma preparação específica por parte das equipas. Em entrevista à Mega FM, o técnico defendeu que os treinadores devem estar preparados para gerir jogos realizados com poucos dias de intervalo, mas reconheceu que o calendário representa um desafio significativo para os clubes, sobretudo em termos físicos, financeiros e logísticos.
Mega FM: Mister Nelson Santos, como avalia as jornadas combinadas do Moçambola, implementadas este ano por razões logísticas?
Nelson Santos: Um treinador, depois de concluir a sua formação, seja pela UEFA ou pela CAF, fica preparado para planificar jogos com diferentes intervalos, seja de sete em sete dias ou de três em três ou quatro em quatro dias. Na Europa, por exemplo, há equipas que jogam ao Domingo e, poucos dias depois, voltam a competir na Liga dos Campeões ou na Liga Europa. Portanto, aquilo que está a acontecer em Moçambique este ano não é propriamente uma novidade no futebol.
É verdade que as jornadas duplas representam uma realidade diferente e que alguns clubes provavelmente não estavam preparados para este modelo. No nosso caso, assim que tivemos conhecimento do calendário, tivemos de nos reorganizar. Havia outras propostas em cima da mesa, mas, enquanto treinador, cabe-me preparar a equipa para aquilo que está definido, e foi isso que fizemos.
Tivemos uma pré-época muito forte, com períodos de grande intensidade a meio e no final da semana, precisamente porque já estávamos a preparar os jogadores para competir com intervalos curtos. Penso que, neste modelo, quem conseguir gerir melhor as cargas físicas e tiver um plantel mais equilibrado e homogéneo poderá retirar mais rendimento da competição.
É um modelo que exige muito dos atletas e também da capacidade financeira dos clubes, tanto a nível mensal como anual. Ainda assim, temos de nos adaptar e procurar tirar o máximo proveito das condições que temos.
Se olharmos para a nossa campanha, temos feito uma excelente época, tanto em casa como fora. As deslocações a Tete, Nampula e, agora, à Beira foram também aproveitadas para proporcionar aos jogadores algum contacto com a realidade cultural das diferentes regiões do país.
Em Tete, no Songo, por exemplo, visitámos a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, algo que muitos moçambicanos provavelmente nunca tiveram oportunidade de fazer. Em Nampula, visitámos os Montes de Nairuco e, na Beira, tivemos a oportunidade de conhecer alguns dos parques da cidade, espaços onde a população pratica caminhadas e actividades físicas. Também visitámos clubes que estão a desenvolver projectos interessantes, como o Futebol Clube da Beira, que tem uma aposta forte na formação.
Portanto, temos de estar preparados para aquilo que este campeonato exige. É verdade que é fácil falar quando estamos em primeiro lugar. Se estivéssemos noutra posição, talvez estivéssemos aqui a apresentar queixas. Mas também temos limitações e dificuldades. O importante é juntar todos esses factores e procurar obter o maior rendimento possível dos atletas para alcançar o nosso principal objectivo, que é sermos campeões.
Mega FM: Um dos grandes problemas apontados neste Moçambola é a logística, nomeadamente os voos, as alterações de jogos e as dificuldades de planificação. Como é que se prepara uma equipa física e psicologicamente quando passa vários dias fora da sua base, a Arena Lalgy, sobretudo em locais onde existem também limitações para treinar?
Nelson Santos: Felizmente, a Black Bulls não sente algumas dessas dificuldades da mesma forma que outras equipas. As formações de Tete, Lichinga, Pemba, Nampula, Nacala e Beira, por exemplo, enfrentam deslocações aéreas. Nós, estando em Maputo, fazemos muitas vezes as nossas deslocações por via terrestre, o que significa que temos menos uma dificuldade logística.
Mas há outra questão muito importante: a recuperação mental dos jogadores. Nesta deslocação à Beira, por exemplo, optei, em determinado momento, por não realizar um treino e privilegiar a recuperação psicológica. Às vezes, é melhor libertar os jogadores, permitir que estejam com as famílias e que saiam um pouco do ambiente do hotel.
Temos muitos atletas da Beira e arredores, por isso procuramos proporcionar-lhes momentos para desligarem do futebol. A vida não é só futebol. Quando estamos constantemente entre vídeos, reuniões, treinos e jogos, chega uma altura em que o desgaste deixa de ser apenas físico e passa a ser também mental.
É uma estratégia que procuramos utilizar. Agora teremos uma paragem de aproximadamente 15 dias. Vou dar dois dias de folga aos jogadores, treinaremos quarta e quinta-feira e, depois, voltarei a dar-lhes mais três dias. Existe o risco de alguns atletas regressarem em condições físicas diferentes, mas temos de gerir essa situação. Por isso, neste momento, mais do que trabalhar a ideia de jogo, o nosso foco está na recuperação e preparação mental dos jogadores. É muito desgastante passar demasiado tempo juntos, em viagens e hotéis, e os atletas também precisam de desanuviar e fazer coisas diferentes.
Mega FM: A Black Bulls está actualmente na liderança. Considera que essa posição também resulta das condições proporcionadas pelo calendário, tendo em conta que existem quatro equipas de Maputo e outras formações enfrentam deslocações muito mais longas?
Nelson Santos: Não quero retirar mérito a nenhuma equipa, incluindo a Black Bulls, o Maxaquene, o Ferroviário de Maputo ou o Costa do Sol. Mas é evidente que ter quatro equipas da mesma cidade proporciona algumas condições diferentes, sobretudo quando falamos de deslocações e de jornadas duplas.
Equipas como a HCB ou o Vilankulo enfrentam outro tipo de dificuldades. Mas isso não é um problema da Black Bulls. Nós temos de aproveitar as condições que temos e trabalhar dentro delas. Depois, cada jogo tem a sua própria história. No encontro contra a Liga Desportiva de Sofala, por exemplo, foi uma partida extremamente difícil. Se tivéssemos empatado, eu seria o primeiro a reconhecer o mérito da Liga Desportiva de Sofala e a admitir que não fomos competentes para ganhar.
Tivemos de colocar vários jogadores de características ofensivas na área para tentar desbloquear o jogo e, felizmente, conseguimos marcar. Depois disso, tivemos oportunidades para fazer o segundo golo, mas também tivemos de manter alguma precaução defensiva.
As condições do relvado também dificultaram, mas isso não pode servir de desculpa. Quando o jogo começa, o relvado é igual para as duas equipas e a bola é a mesma para os 22 jogadores. Não sou um treinador que procura desculpas.
Foi uma vitória muito saborosa e difícil. Eu já tinha dito aos jogadores que, apesar de todo o respeito pelo Ferroviário da Beira, aquele seria provavelmente o jogo mais complicado. Quando enfrentamos equipas que jogam abertas e procuram ganhar, encontramos mais espaços, e a nossa equipa é perigosa quando tem espaço. Contra equipas compactas, que defendem num bloco médio ou baixo, os jogos tornam-se mais difíceis.
A Liga Desportiva de Sofala já tinha feito uma excelente primeira parte contra nós na primeira volta. Portanto, sabíamos das dificuldades que iríamos encontrar.
Há muitas equipas e treinadores a fazer um excelente trabalho e acredito que várias formações ainda vão subir na classificação. Não podemos estar sempre a dizer que somos beneficiados ou prejudicados. Todos somos beneficiados e prejudicados em determinados momentos. Até os árbitros erram, porque são seres humanos, tal como os treinadores e os jogadores.
Nós estamos em primeiro lugar com mérito. Há cerca de um mês, perdemos por uma margem muito expressiva frente ao Costa do Sol. Foi uma derrota dura, mas não procurei desculpas. Reconheci que o adversário foi superior e que mereceu ganhar. Poderíamos até ter sofrido mais golos.
Poucos dias depois, conseguimos dar uma resposta positiva contra a UDS. É assim que o futebol funciona. Para ganhar, também temos de saber perder.
Esta é a minha oitava época em Moçambique e ainda não consegui conquistar um campeonato. Ganhei uma Taça de Moçambique e fui três vezes vice-campeão. Por isso, quero muito ganhar e a equipa também quer muito ganhar.
Mas o campeonato só se ganha em Novembro. Neste momento, temos sete finais pela frente e todos os jogos serão extremamente difíceis, seja em casa ou fora.
Espero conseguir ajudar a Black Bulls a conquistar este título, porque o nosso presidente e toda a família Black Bulls, incluindo os motoristas, cozinheiros, responsáveis pelo relvado, técnicos e todos os que trabalham diariamente no clube, merecem esse reconhecimento.
É um trabalho colectivo. Nós apostamos na base e na formação, e não é fácil formar jogadores e, ao mesmo tempo, vê-los sair para outros mercados. Só este ano já perdemos três jogadores: Hernâni, que foi para o Ruanda, e Cantolo e Fernandinho, que seguiram para a Arábia.
Provavelmente vamos perder mais jogadores no final da época. Isso significa que o projecto está a crescer. Mas, para continuar a crescer, também é preciso ganhar, porque esta é uma equipa construída para competir e para ganhar.
Mega FM: Depois de algum tempo de ausência, como olha para o futebol moçambicano actualmente, particularmente para o Moçambola?
Nelson Santos: Penso que o futebol moçambicano tem vindo a crescer e a evoluir. Uma das provas disso é o número e a qualidade dos jogadores que estão a chegar aos Mambas, bem como a quantidade de futebolistas moçambicanos que estão a jogar no estrangeiro.
Também temos conseguido atrair jogadores para o campeonato nacional. Naturalmente, há sempre aspectos a melhorar e questões que devem ser repensadas. No final desta época, será importante sentarmo-nos e analisar aquilo que funcionou e aquilo que pode ser melhorado na organização das competições.
Nós, treinadores, também temos sempre aspectos a melhorar. Portanto, acredito que todos os intervenientes devem fazer essa reflexão.
Moçambique merece ter mais equipas nas competições africanas. Infelizmente, a União Desportiva do Songo não conseguiu qualificar-se, mas temos exemplos de campanhas anteriores que demonstram que as equipas moçambicanas podem competir a um nível elevado.
Recordo-me, por exemplo, da campanha do Ferroviário da Beira, há alguns anos, que conseguiu chegar a uma fase avançada de uma competição africana. É esse tipo de percurso que devemos procurar repetir.
No caso da Black Bulls, queremos chegar à fase de grupos das competições africanas. Não podemos sonhar baixo. Temos de ser ambiciosos. Sabemos que não será fácil, mas queremos chegar à fase de grupos e, depois, ultrapassá-la. No entanto, neste momento, o nosso principal objectivo continua a ser conquistar o campeonato nacional.
Quero também aproveitar esta oportunidade para dizer que é sempre um enorme prazer visitar a cidade da Beira. É uma cidade onde se vive o futebol com muito amor e carinho. Não é fácil encontrar estádios tão cheios como o Caldeirão do Chiveve, com pessoas a acompanharem e a apoiarem as suas equipas.
Quero deixar um abraço ao meu grande amigo Anísio, que me está a entrevistar. É uma pessoa que conheço há muitos anos, com quem tenho uma relação de amizade e que já foi meu adversário. É sempre um prazer reencontrá-lo.
Deixo também uma palavra às pessoas da Beira e de Sofala: continuem a gostar e a apoiar o futebol. Sofala tem muitos jogadores, e os clubes da Beira têm infra-estruturas e projectos que podem contribuir para o desenvolvimento da modalidade.
No final do dia, o mais importante é continuarmos a alimentar o futebol, levar o nome de Moçambique e da nossa bandeira o mais longe possível e ajudar os Mambas. Quando o futebol moçambicano cresce, ganham os jogadores, ganham os clubes, ganha a selecção e ganha o país.