O desporto que vence dentro de campos que perdem
Por Anísio Pascoa
Publicado em 24/09/2026 07:50
ARTIGO DE OPINIÃO

Muito recentemente, Nazir Salé voltou a conquistar mais um título ao serviço da equipa sénior feminina de basquetebol do Ferroviário de Maputo. Sob a sua orientação, e com o contributo de sucessivas gerações de atletas, o clube tem construído um percurso que merece reconhecimento. Se a memória não me atraiçoa, a equipa conquistou quatro títulos consecutivos da Liga Sasol, em 2023, 2024, 2025 e 2026, e três títulos africanos da FIBA — em 2018, 2019 e 2024. Parabéns!

São resultados que colocam o basquetebol feminino do Ferroviário de Maputo entre as referências do desporto moçambicano e africano.

Mas há um paradoxo difícil de ignorar: uma equipa desta dimensão e deste prestígio continua a treinar num campo que envergonha o próprio clube.

O piso, as condições da infraestrutura e o estado geral daquele espaço estão muito aquém do que seria razoável esperar de uma equipa que, dentro e fora do país, representa com enorme dignidade uma instituição da dimensão dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM).

É aqui que, verdadeiramente, "a porca torce o rabo".

Como pode uma instituição à qual muitos moçambicanos devem reconhecimento e respeito assistir, praticamente à porta do seu próprio Conselho de Administração, à degradação de uma infraestrutura desportiva utilizada pelas nossas “meninas de ouro”? Não se trata apenas de um campo de basquetebol. Trata-se de um espaço associado à formação, à competição e à construção de talentos que levam o nome do Ferroviário e de Moçambique e dos CFM para além-fronteiras.

E o mais difícil de compreender é que estamos perante uma zona com uma forte tradição desportiva. Ali ao lado encontram-se o campo de futebol, os campos de ténis e a piscina, infraestruturas que já acolheram momentos memoráveis do nosso desporto.
O problema, portanto, não parece ser a ausência de património desportivo. O problema é a sua conservação, valorização e utilização adequada.

O caso do Ferroviário de Maputo não é, aliás, isolado. Em outras partes do país, encontramos exemplos semelhantes de infraestruturas desportivas que se foram degradando com o tempo. Na Beira, por exemplo, o pavilhão do Ferroviário e a piscina do clube também levantam preocupações sobre a forma como estamos a cuidar do património desportivo que recebemos das gerações anteriores.

E há ainda o caso do Estádio da Independência, antigo Estádio da Machava, cuja reabilitação parece arrastar-se, enquanto uma infraestrutura de enorme importância histórica continua à espera de uma solução definitiva.

Os CFM possuem um vasto património e uma presença histórica em várias regiões do país. Ao longo dos anos, as suas infraestruturas desportivas foram muito mais do que simples instalações: foram espaços de formação, competição, convívio e afirmação do talento nacional.

Por isso, a questão que se coloca é simples: a valorização do desporto e das suas infraestruturas ainda constitui uma prioridade?
Não se pode exigir que os atletas tragam títulos, que os treinadores produzam campeões e que os clubes representem dignamente o país, enquanto as condições materiais para o fazer permanecem esquecidas. O talento pode compensar muitas limitações, mas não pode substituir indefinidamente uma política de manutenção e investimento.

Há também uma questão de património. Em Moçambique, temos assistido à transformação ou desaparecimento de vários espaços que fizeram parte da nossa memória coletiva. Antigas infraestruturas desportivas, culturais e sociais vão dando lugar a outras utilizações, muitas vezes sem que exista uma discussão pública sobre aquilo que se perde no processo.

Seria lamentável que, um dia, alguém olhasse para aquela infraestrutura na Baixa de Maputo e visse apenas o valor do terreno onde ela está implantada — e não o valor histórico, desportivo e social que representa.

Não se trata de defender que todas as infraestruturas antigas devem permanecer intocáveis. Trata-se, isso sim, de exigir que qualquer decisão sobre o património desportivo seja tomada com visão de longo prazo, responsabilidade e respeito pela memória coletiva.

O Ferroviário de Maputo tem atletas que conquistam títulos africanos. Tem treinadores que continuam a formar campeãs. Tem uma história que atravessa gerações.

O mínimo que essas campeãs merecem é um campo à altura dos títulos que conquistam.

E os CFM, enquanto instituição com uma longa tradição de apoio ao desporto, têm a oportunidade — e, diria eu, a responsabilidade — de mostrar que preservar e modernizar o património desportivo também é uma forma de investir no futuro de Moçambique.

Com a melhor das intenções.

Comentários
Comentário enviado com sucesso!