Transparência e prioridades num Moçambique que precisa de respostas
Por Anísio Pascoa
Publicado em 01/10/2026 11:17
ARTIGO DE OPINIÃO

No nosso artigo de hoje, gostaríamos de abordar dois assuntos que têm suscitado intenso debate na sociedade moçambicana: a não transmissão televisiva do julgamento de Venâncio Mondlane e a discussão em torno da necessidade de Moçambique ter bilionários.

Comecemos pelo julgamento. Tratando-se de um processo que desperta grande interesse público, é legítimo perguntar: por que razão não será transmitido? Se as justificações apresentadas assentam na necessidade de salvaguardar a presunção de inocência, proteger as testemunhas ou nas limitações de espaço na sala de audiência, importa, igualmente, esclarecer quais os órgãos de comunicação social que terão acesso ao julgamento e com base em que critérios serão seleccionados para fazer a cobertura.

Num país onde a transparência das instituições é cada vez mais importante, a ausência de transmissão pública de um julgamento de tão elevado interesse nacional suscita, naturalmente, interrogações. Quando existe informação de interesse público que pode ser disponibilizada de forma transparente, quanto maior for a percepção de restrição, maior poderá ser também a desconfiança dos cidadãos. Afinal, como diz o conhecido ditado: “quem não deve, não teme”. Mais do que uma conclusão, a expressão traduz uma expectativa legítima de transparência por parte de uma sociedade que quer compreender o que acontece nas suas instituições.

Passemos, então, ao segundo assunto: a necessidade de Moçambique ter bilionários.

Naturalmente, não há nada de errado em desejar um país com cidadãos prósperos, empresas competitivas e capacidade para gerar grandes fortunas. Pelo contrário, uma economia dinâmica deve ser capaz de criar riqueza e proporcionar oportunidades. A questão, porém, está em saber que tipo de riqueza queremos produzir, como ela é criada e quem dela beneficia.

É difícil discutir a existência de bilionários num país onde ainda há alunos a estudar em condições precárias, hospitais que enfrentam dificuldades no acesso a medicamentos, uma indústria nacional que continua a precisar de maior desenvolvimento, estradas nacionais totalmente danificadas e milhares de cidadãos que lutam diariamente para garantir o essencial. Não se trata, portanto, de condenar a riqueza, mas de discutir as condições em que ela é criada e as prioridades que devem orientar o desenvolvimento nacional.

Aliás, antes de perguntarmos quantos bilionários Moçambique poderá ter daqui a dez anos, talvez devêssemos perguntar: de onde provém a riqueza dos milionários que já temos? É resultado da produção, da inovação, da industrialização, do investimento e da criação de empregos? Ou haverá também casos em que o acesso privilegiado a recursos, oportunidades ou património público tenha desempenhado um papel? São perguntas legítimas numa sociedade que procura compreender a origem e a distribuição da riqueza.

Moçambique precisa, sim, de riqueza. Mas precisa, sobretudo, de uma riqueza capaz de gerar desenvolvimento, empregos, indústria, melhores escolas, hospitais funcionais e dignidade para a maioria dos cidadãos. Não basta criar grandes fortunas; é igualmente importante criar condições para que a prosperidade económica se traduza em melhores oportunidades para a sociedade.

No fundo, os dois debates remetem para uma questão comum: transparência e prioridades. Queremos instituições em que o cidadão possa confiar e uma economia capaz de produzir prosperidade de forma sustentável e abrangente. O desenvolvimento de um país, por isso, não deve ser observado apenas através do número de milionários ou bilionários que consegue produzir, mas também através da qualidade de vida da maioria da sua população.

E, nesse aspecto, Moçambique ainda tem enormes desafios pela frente.

Para terminar, há ainda um outro assunto que merece esclarecimento: a questão dos “trinta camiões”. Terá esta decisão sido discutida previamente com todas as partes interessadas? É uma pergunta pertinente, sobretudo porque já ouvimos, aqui na Beira, a Associação dos Transportadores manifestar, ao que parece, discordância em relação à medida. Se a intenção é encontrar soluções para melhorar o transporte e a mobilidade, então talvez seja importante ouvir aqueles que vivem diariamente essa realidade.

Porque, no fim de contas, boas decisões não se fazem apenas com boas intenções; fazem-se também com diálogo, transparência e capacidade de ouvir quem será directamente afectado por elas.

Com a melhor das intenções!

Comentários
Comentário enviado com sucesso!