Quando os guardiões da lei violam a própria lei
Por Anísio Pascoa
Publicado em 28/07/2026 10:19 • Atualizado 28/07/2026 10:26
ARTIGO DE OPINIÃO
Foto: Jornal O País

A notícia da detenção de dois agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM), suspeitos de terem provocado um acidente de viação na noite de sábado, na zona de Chiluvane, distrito de Chongoene (Jornal O País - 27 de Julho - versão virtual), que resultou na morte de cinco pessoas e ferimentos em outras seis, levanta sérias inquietações sobre a disciplina, a formação e os mecanismos de controlo no seio da corporação.

Segundo informações tornadas públicas pela própria PRM, os agentes são suspeitos de conduzirem sob efeito de álcool e sem carta de condução. Se estes factos vierem a confirmar-se no decurso das investigações, estaremos perante uma situação particularmente grave, não apenas pelas consequências trágicas do acidente, mas também porque os envolvidos são profissionais cuja missão é precisamente fiscalizar o cumprimento do Código da Estrada e promover a segurança rodoviária.

Esta situação suscita inevitavelmente várias questões de interesse público. Como é possível que agentes encarregues de fazer cumprir a lei possam exercer funções sem estarem devidamente habilitados para conduzir, caso tal venha a ser confirmado? Quais são os critérios de recrutamento, formação, certificação e fiscalização dos agentes afectos ao trânsito? Que mecanismos internos existem para garantir que os efectivos cumprem os mesmos requisitos legais exigidos aos cidadãos?

Mais preocupante ainda é a possibilidade de este episódio não constituir um caso isolado. A sociedade tem o direito de questionar se existem outros agentes a desempenhar funções em circunstâncias semelhantes e que medidas preventivas estão a ser adoptadas para identificar e corrigir eventuais irregularidades antes que novas tragédias ocorram.

Mais do que responsabilizar individualmente os envolvidos, este caso deve servir como um alerta para a necessidade de reforçar a fiscalização interna, elevar os padrões de profissionalismo e consolidar uma cultura de responsabilidade dentro da PRM. A confiança dos cidadãos nas instituições constrói-se pelo exemplo, e esse exemplo deve começar precisamente por aqueles que têm a missão de fazer cumprir a lei.

As famílias das vítimas merecem respostas claras e justiça. E o país merece a garantia de que episódios desta natureza serão rigorosamente investigados e que, caso as suspeitas sejam confirmadas, as responsabilidades serão integralmente apuradas, acompanhadas de medidas concretas para impedir que situações semelhantes se repitam.

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