O Medo Não Pode Ser a Condição de Vida de um Povo
Por Anísio Pascoa
Publicado em 20/08/2026 14:13
ARTIGO DE OPINIÃO

Uma sociedade onde os cidadãos vivem dominados pelo medo, privados dos seus direitos fundamentais e sem perspectivas de uma vida digna, é o reflexo de um Estado que não está a cumprir plenamente a sua missão. O direito à vida, à liberdade, ao trabalho, à segurança e ao bem-estar não deve ser visto como um privilégio concedido por quem governa, mas como um dever constitucional que o Estado tem a obrigação de garantir.

É preocupante que, em vez de se implementarem políticas públicas capazes de criar emprego, estimular a produção e promover o desenvolvimento económico, se continue a valorizar uma cultura de assistencialismo que, muitas vezes, serve mais para alimentar a imagem de governantes, empresários ou organizações do que para transformar a realidade das comunidades. A solidariedade é importante em momentos de emergência, mas nunca pode substituir políticas estruturantes que devolvam às pessoas a sua autonomia e dignidade.

Não é aceitável que o sucesso de uma governação seja medido pela capacidade de um cidadão comprar diariamente pequenas porções de produtos essenciais para sobreviver. Essa realidade não representa progresso; representa a institucionalização da pobreza e a normalização da precariedade. Um país verdadeiramente comprometido com o desenvolvimento cria condições para que os seus cidadãos tenham rendimentos suficientes para adquirir os bens necessários ao longo do mês, planear o futuro e proporcionar melhores oportunidades aos seus filhos.

Também merece reflexão o papel da elite económica nacional (grande parte dela “nhonguista”, que se beneficia de tráfico de influência/informação privilegiada e de protecionismo partidário). Beneficiar das riquezas do país implica uma responsabilidade acrescida na criação de emprego, no investimento produtivo e na promoção da inclusão social. O patriotismo não se demonstra apenas através de discursos inflamados ou de gestos simbólicos; demonstra-se através de acções concretas que contribuam para reduzir as desigualdades, fortalecer a economia e melhorar a qualidade de vida da população.

Enquanto persistirem políticas que aliviam apenas as consequências da pobreza, sem enfrentar as suas causas, o medo, a insegurança e a exclusão continuarão a marcar o quotidiano de muitos moçambicanos. O verdadeiro desenvolvimento exige liderança responsável, justiça social e um compromisso genuíno com a dignidade humana. Como ensina um conhecido provérbio chinês, “não dês peixe a quem tem fome; ensina-o a pescar”: um povo não precisa de viver eternamente da caridade ou de soluções assistencialistas; precisa de oportunidades, instrumentos e condições para viver do seu próprio trabalho, com liberdade, segurança e esperança no futuro. É dando às pessoas os meios para construírem a sua própria vida que se combate verdadeiramente a pobreza e se constrói uma sociedade mais justa, digna e próspera.

Com a melhor das intenções!

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