Cinquentas anos de casamento: quando a família deixa de acreditar no pai
Por Anísio Pascoa
Publicado em 27/08/2026 08:48
ARTIGO DE OPINIÃO

Hoje, ao contrário das outras vezes, gostaria de falar-vos de um casal que está casado há cinquenta anos.

Nos primeiros anos, tudo corria às mil maravilhas, como sói dizer-se. Havia sonhos, projectos e a esperança de construir uma família feliz. Os anos passaram, os filhos nasceram, cresceram e estudaram. Mas, com o tempo, aquela família que parecia caminhar unida começou a revelar as suas profundas feridas.

O pai, que deveria ser o garante do bem-estar da família, deixou de proporcionar as condições mínimas aos seus. Quando alguém ousava reclamar, respondia com violência. A mãe, desesperada, procurava os familiares, na esperança de que alguém conseguisse convencer o chefe da família a mudar de comportamento.

E, curiosamente, sempre que os familiares chegavam, o pai sabia recebê-los. Colocava na mesa o que havia de melhor, mostrava uma casa aparentemente organizada e prometia que, daquela vez, tudo seria diferente. Prometia que os filhos teriam melhores condições, que a vida da família iria mudar e que os problemas seriam resolvidos.

Mas, depois que os familiares partiam, tudo voltava ao mesmo.

As promessas ficavam pelo caminho.

Enquanto os filhos enfrentavam dificuldades para estudar, alguns debaixo de árvores, enquanto faltavam cuidados médicos e alimentação adequada, o pai parecia cada vez menos preocupado com a primeira família. Até que, certo dia, decidiu constituir uma segunda família.

E para esta havia tudo.

Os novos filhos nasceram em condições privilegiadas, alguns até fora do país ou em clínicas especiais. A nova casa tinha de ser condigna. Os novos filhos tinham direito àquilo que os primeiros nunca tiveram.

Os filhos da primeira família começaram então a fazer perguntas. Afinal, se havia recursos para proporcionar uma vida digna aos novos filhos, por que razão não havia para eles?

E foi aí que começaram a reivindicar.

O pai, porém, em vez de responder às perguntas, tornou-se ainda mais violento. Os filhos, sentindo-se abandonados, começaram a procurar quem os ouvisse, quem lhes devolvesse a esperança e, sobretudo, quem lhes permitisse continuar a sonhar.

Esta história, embora pareça apenas a história de uma família, talvez seja demasiado familiar para muitos moçambicanos.

Há famílias que vivem há décadas à espera de que as promessas feitas pelo “pai” se transformem finalmente em realidade. Há filhos que estudam em condições precárias, cidadãos que enfrentam dificuldades no acesso à saúde, comunidades que continuam sem condições básicas de vida e jovens que procuram desesperadamente uma oportunidade para construir o seu futuro.

E, entretanto, há quem viva muito melhor.

É difícil não pensar em Moçambique quando se olha para esta família. Não porque a política possa ser reduzida a uma relação entre marido e mulher, mas porque a metáfora ajuda-nos a compreender uma realidade que se tornou difícil de ignorar: a distância entre o discurso e a vida concreta dos cidadãos.

O problema não está apenas nas promessas. Está na repetição das promessas.

Promete-se hoje aquilo que já havia sido prometido ontem. Anunciam-se mudanças, fazem-se discursos, reúnem-se os familiares e, por alguns instantes, parece que tudo será diferente. Depois, a vida regressa ao mesmo lugar.

George Orwell percebeu este mecanismo de forma extraordinariamente lúcida em O Triunfo dos Porcos. Os animais revoltam-se contra uma ordem injusta porque acreditam que, depois da mudança, todos serão iguais. Mas aqueles que conquistam o poder acabam por criar novos privilégios. As palavras permanecem, mas o seu significado muda. A igualdade continua a ser proclamada enquanto a desigualdade se instala.

Talvez seja essa uma das grandes lições de Orwell: não basta mudar os discursos se as práticas permanecerem as mesmas.

Na nossa família imaginária, o pai continua a dizer que ama todos os filhos, mas comporta-se como se alguns fossem mais filhos do que outros. E talvez seja precisamente aí que reside a maior injustiça: não na ausência de recursos, mas na sua distribuição desigual; não na falta de promessas, mas na distância entre aquilo que se promete e aquilo que se entrega.

Quando os filhos começam a perguntar por que razão uns têm direito a tudo e outros têm de se contentar com quase nada, o problema deixa de ser familiar. Torna-se político.

E quando aqueles que deveriam ser protegidos passam a ter medo de quem deveria protegê-los, alguma coisa fundamental se rompeu.

A história também nos mostra outra coisa. Uma família não permanece unida apenas porque vive debaixo do mesmo tecto. Um país também não permanece verdadeiramente unido apenas porque os seus cidadãos partilham o mesmo território. A verdadeira unidade constrói-se quando existe justiça, confiança, respeito e a percepção de que os recursos e as oportunidades não pertencem apenas a alguns.

Quando os filhos deixam de acreditar no pai, não é necessariamente porque deixaram de amar a família. Pode ser porque já não acreditam nas palavras daquele que deveria conduzi-la.

E talvez seja esse o momento em que todos devemos parar e perguntar: quantas vezes mais será necessário prometer à família que amanhã será diferente?

Porque uma família pode suportar dificuldades. Pode suportar sacrifícios. Pode até suportar erros.

O que dificilmente suporta para sempre é perceber que, enquanto alguns filhos são convidados para a mesa principal, outros continuam do lado de fora, à espera das migalhas.

E uma sociedade que chega a esse ponto precisa, mais do que de novas promessas, de respostas.

Com a melhor das intenções!

P.S.: Mais do que propagar as “Boas Novas” vindas de Chimoio, importa que cada filho da Pátria de Mondlane assuma e viva este desafio. Caso contrário, como diz o velho provérbio popular: “Palavras, o vento leva”!

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