Moçambique não pode ter filhos de primeira e filhos de segunda
Por Anísio Pascoa
Publicado em 03/09/2026 09:45
ARTIGO DE OPINIÃO

Provavelmente, já terá ouvido alguma mãe, num momento de fúria, dizer a um dos seus filhos, por causa de alguma travessura ou atitude que a tenha desagradado: “Nem parece que és meu filho!”. É uma expressão que, embora possa ser dita num momento de irritação, raramente significa que aquela criança deixou de pertencer à família.

Também não é difícil encontrar famílias em que irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, apoiam clubes de futebol diferentes, defendem opiniões políticas distintas ou simplesmente têm maneiras de pensar e de estar na vida completamente opostas. Ainda assim, continuam a ser filhos. Os pais não deixam de os amar nem passam a tratar uns como filhos e outros como enteados por causa das suas diferenças.

Há, nisso, uma grandeza que deveria servir de inspiração para a sociedade: a diferença não elimina a pertença.

É precisamente esta reflexão que me leva ao nosso querido Moçambique. Afinal, por que razão aquilo que aceitamos com naturalidade dentro de uma família parece ser tão difícil de praticar na vida política e social do país?

Em Moçambique, infelizmente, não são poucos os cidadãos que sentem que, por não concordarem com o partido no poder, passam automaticamente a ser vistos como moçambicanos de segunda. Basta pensar de maneira diferente para surgirem avisos, ameaças veladas e conselhos para “ter cuidado”. Há quem tema expressar publicamente a sua opinião porque sabe que uma posição política divergente pode trazer consequências para a sua vida profissional, social ou até para a sua segurança (Ficamos, por exemplo, a saber que um senhor economicamente respeitado só agora, aos 70 anos, teve a coragem de dizer o que lhe ia na alma dentro do partido que milita).

Mais grave ainda é quando o medo começa a contaminar as relações pessoais. Amigos afastam-se de amigos, familiares evitam determinados assuntos e pessoas que partilham as mesmas ideias passam a desconfiar umas das outras. Tudo porque existe o receio de ser associado à oposição e, com isso, perder uma oportunidade, um emprego, uma função ou aquilo que, na linguagem popular, se chama “o tacho”.

Que país estamos a construir quando a liberdade de pensamento se transforma num risco?

Na cidade onde vivo, a Beira, é, por vezes, difícil não notar o distanciamento entre estruturas políticas e institucionais que deveriam, acima de tudo, trabalhar em benefício dos cidadãos. Há eventos organizados pelo município em que a ausência de representantes do Governo provincial é notória. Independentemente das razões concretas de cada ausência, não deixa de ser preocupante quando as diferenças políticas parecem sobrepor-se à necessidade de cooperação institucional.

Um município, um governo provincial e o Governo central não deveriam comportar-se como famílias rivais. Deveriam compreender que têm uma responsabilidade comum: servir o povo moçambicano.

É por isso que, neste momento em que o partido no poder manifesta a intenção de se aproximar do povo, ouvir as suas preocupações e respeitar as suas vontades, considero fundamental que o Presidente da República, Daniel Chapo, transmita uma mensagem inequívoca aos seus correligionários: um dos grandes desafios de Moçambique é aprender a conviver com a diferença.

Não basta falar de desenvolvimento, paz, reconciliação ou unidade nacional. É preciso praticá-los. E praticá-los significa aceitar que, numa sociedade democrática, nem todos têm de pensar da mesma maneira.

O cidadão que critica o Governo não é inimigo do país. O cidadão que vota na oposição não deixa de ser moçambicano. O jornalista que questiona o poder não é necessariamente um adversário. O académico que apresenta uma visão diferente não está, por isso, a conspirar contra a pátria. E aquele que denuncia uma injustiça não deveria ser perseguido por ter coragem de falar.

Pelo contrário: uma sociedade saudável precisa de cidadãos capazes de questionar o poder.

Se queremos verdadeiramente lutar pelo desenvolvimento de Moçambique, precisamos de abandonar a lógica segundo a qual só merece ser ouvido quem concorda connosco. Chega de perseguições. Chega de repressão. Chega de transformar a divergência numa ameaça. E, sobretudo, que nunca mais se considere aceitável a violência ou a morte como resposta à diferença política.

Como tem defendido o Professor Severino Nguenha, pensar diferente também pode ser uma forma de “amar Moçambique”. E talvez esta seja uma das lições mais importantes de que precisamos neste momento: amar o país não significa concordar com tudo o que o Governo faz. Às vezes, amar Moçambique é precisamente ter a coragem de dizer que alguma coisa está errada e que pode ser feita de outra maneira.

Ninguém, no seu perfeito juízo, pode acreditar que o país está bem quando persistem problemas económicos, sociais, políticos e institucionais que afectam diariamente a vida dos cidadãos. Fingir que tudo está bem não resolve os problemas; apenas os torna mais difíceis de enfrentar.

Por isso, senhor Presidente, o apelo é simples: ajude-nos a aprender a conviver com a diferença.

Ensine aos seus correligionários que a oposição política não deve ser encarada como uma doença que precisa de ser eliminada, mas como parte legítima da vida democrática. Mostre, Excelência, como religioso e como homem bondoso, que um adversário político pode ser, simultaneamente, um compatriota, um vizinho, um amigo e alguém que também deseja o melhor para Moçambique.

Porque Moçambique é de todos nós.

Não pode haver moçambicanos de primeira e moçambicanos de segunda. Não pode haver filhos legítimos e filhos emprestados da pátria. Somos filhos do mesmo país, ainda que tenhamos clubes diferentes, opiniões diferentes, partidos diferentes e visões diferentes sobre o futuro.

A verdadeira grandeza de uma nação não está em conseguir que todos pensem da mesma maneira. Está em conseguir que pessoas que pensam de maneiras diferentes possam viver juntas, respeitar-se e trabalhar pelo mesmo país.

Caso contrário, teremos de admitir aquilo que nenhum democrata gostaria de ouvir: que ainda não aprendemos a viver em democracia.

E seria particularmente triste se, um dia, a história nos obrigasse a recordar aquela velha e amarga ideia atribuída a um sociólogo francês — cuja autoria exacta merece ser confirmada — segundo a qual, em África, a democracia serviria apenas para identificar os opositores e, depois, eliminá-los.

Moçambique não pode aceitar esse destino.

O nosso maior desafio talvez seja justamente este: aprender que pensar diferente não nos torna menos moçambicanos. Torna-nos, simplesmente, cidadãos diferentes de um mesmo país.

Com a melhor das intenções!

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