Depois de Marrocos e da África do Sul, o Ruanda procura afirmar-se como mais um país africano capaz de acolher grandes eventos desportivos ligados à Fórmula 1. O primeiro Grande Prémio no Ruanda está agendado para o início dos anos 2030 num circuito em Bugesera, a cerca de 50 quilómetros da capital Kigali. Para muitos, poderá parecer apenas mais um fim-de-semana de corridas. Mas não é. Por detrás de uma iniciativa desta dimensão, existe uma estratégia de projecção internacional de um país que, durante muito tempo, ficou associado a um dos capítulos mais sombrios da história recente de África: o genocídio de 1994, que vitimou centenas de milhares de ruandeses.
Sob a liderança de Paul Kagame, o Ruanda tem procurado reconstruir a sua imagem e afirmar-se como um destino de investimento, turismo e grandes eventos internacionais. Em vez de se limitar ao peso do seu passado, o país tem apostado em diferentes sectores, incluindo o desporto, como instrumentos de desenvolvimento e afirmação internacional.
A realização de grandes eventos desportivos e culturais, para além de contribuir para a criação e modernização de infra-estruturas, pode dinamizar a economia, gerar emprego, atrair turistas e investidores e reforçar a visibilidade internacional do país. É uma estratégia que demonstra como o desporto, quando integrado numa visão de desenvolvimento, pode ir muito além da competição e do espectáculo.
Investir no desporto é, portanto, uma forma inteligente de pensar o desenvolvimento de um país. Infelizmente, em Moçambique, parece que estamos a caminhar na direcção contrária. O desporto tem sido progressivamente relegado para segundo plano, enquanto infra-estruturas que outrora foram importantes palcos de grandes eventos desportivos se degradam perante a aparente indiferença de quem tem a responsabilidade de as preservar.
E o problema não se resume à falta de novas infra-estruturas desportivas. Passa também pelo abandono daquelas que já existem e que, com uma manutenção adequada e a devida modernização, poderiam continuar a servir os atletas, os clubes e as comunidades. É lamentável que tenhamos um Estádio Nacional nas condições em que se encontra, uma situação que deveria envergonhar-nos e levar-nos a reflectir seriamente sobre a forma como temos cuidado do nosso património desportivo. Aproveito, igualmente, esta oportunidade para felicitar o Juneide Lalgy, da Black Bulls, pelo contributo que tem dado ao desenvolvimento do desporto nacional.
O Pavilhão do Maxaquene, por exemplo, continua a resistir à passagem do tempo, mas necessita de adaptações para responder às exigências actuais de competições internacionais, nomeadamente às impostas pela Federação Internacional de Basquetebol (FIBA). Na Beira, o pavilhão do Ferroviário foi parcialmente destruído pelo ciclone Idai, em 2019. Desde então, a sua reabilitação continua a ser uma preocupação que não pode ficar eternamente dependente de promessas. Em Nampula, a situação do pavilhão do Ferroviário também merece atenção.
Estes são apenas alguns exemplos de uma realidade que exige uma reflexão séria sobre as prioridades nacionais. Não basta falar do potencial desportivo de Moçambique quando faltam condições adequadas para treinar, competir e acolher eventos de dimensão nacional e internacional.
É igualmente urgente desmaputizar o desporto moçambicano. Não faz sentido que a capital do país continue a concentrar grande parte das oportunidades, dos investimentos e dos eventos desportivos relevantes, enquanto outras cidades e províncias permanecem à margem. A descentralização das infra-estruturas e das competições não é um favor concedido às províncias: é uma necessidade para promover a inclusão, descobrir talentos, dinamizar as economias locais e distribuir de forma mais equilibrada as oportunidades de desenvolvimento.
Grandes eventos desportivos podem estimular a hotelaria, a restauração, os transportes, o comércio e outros serviços. Podem ainda criar oportunidades para os jovens, incentivar o empreendedorismo e projectar internacionalmente cidades que, de outra forma, dificilmente beneficiariam da mesma exposição. Mas, para que isso aconteça, é necessário investir, planificar e garantir que os benefícios chegam efectivamente às populações.
O desenvolvimento de Moçambique não pode continuar a ser medido apenas pelas minas, pelo ouro, pelo carvão, pelo gás e por outras riquezas minerais, sobretudo quando os benefícios dessa exploração não se traduzem, de forma suficientemente visível, numa melhoria das condições de vida da maioria dos cidadãos. Um país não se desenvolve apenas por aquilo que extrai do seu solo, mas também pela capacidade de investir nas pessoas, nas suas competências e no seu bem-estar.
O desporto faz parte dessa equação. Promove a saúde, disciplina, solidariedade e espírito de equipa. Ensina a ganhar com humildade e a perder com dignidade. Cria oportunidades de ocupação saudável para a juventude, ajuda a fortalecer os laços comunitários e pode contribuir para a prevenção de comportamentos de risco. Quando bem organizado e apoiado, torna-se também uma actividade económica capaz de gerar emprego e rendimento.
Infelizmente, parece faltar à nossa classe dirigente uma compreensão mais profunda do papel que o desporto pode desempenhar na transformação da sociedade. Não se trata de defender gastos desportivos irresponsáveis, nem de ignorar as necessidades urgentes de sectores como a saúde, a educação e o abastecimento de água. Trata-se de reconhecer que o investimento desportivo, quando bem planificado, transparente e sustentável, pode complementar essas prioridades e produzir benefícios económicos e sociais duradouros.
Enquanto outros países africanos procuram transformar o desporto numa alavanca de desenvolvimento, Moçambique corre o risco de continuar a desperdiçar oportunidades, deixando infra-estruturas degradarem-se e concentrando as poucas iniciativas em Maputo.
A questão, por isso, não é apenas saber quando teremos condições para acolher grandes competições internacionais. A verdadeira questão é saber quando o desporto passará a integrar, de forma séria e consistente, a estratégia nacional de desenvolvimento.
Porque investir no desporto não é um luxo. É investir na juventude, na saúde, na economia, no turismo e na coesão social. E um país que negligencia o seu desporto acaba, também, por negligenciar parte do seu próprio futuro.
Com a melhor das intenções!