Ao longo da história da humanidade, o diálogo revelou-se sempre o instrumento mais eficaz para promover o entendimento entre os povos. Pelo contrário, a guerra nunca constituiu uma solução definitiva para os conflitos, quer no interior dos Estados, quer entre nações. A violência pode impor vencedores momentâneos, mas raramente produz paz, reconciliação ou justiça.
Moçambique conhece bem esta realidade. O longo conflito entre o Governo e a RENAMO deixou profundas marcas no país. Passadas décadas de confrontação, poderá alguém afirmar, com honestidade, que houve verdadeiros vencedores? Todos perderam: vidas humanas, oportunidades de desenvolvimento, confiança entre os cidadãos e recursos indispensáveis ao progresso nacional.
O mesmo se pode dizer de outros conflitos, como a questão de Cabinda, em Angola, ou da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, onde a expectativa de uma vitória rápida deu lugar a um conflito prolongado, com elevadíssimos custos humanos, económicos e políticos. Também as recentes tensões envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão têm estado a demonstrar que, quando o diálogo cede lugar aos interesses estratégicos, à desconfiança e à lógica da força, são sempre os povos que suportam as consequências.
É precisamente por isso que um diálogo só produz resultados quando é verdadeiro, honesto e inclusivo. Não basta reunir alguns intervenientes à mesa das negociações; é indispensável que todos os protagonistas relevantes sejam ouvidos e respeitados. Quando determinados actores são excluídos, dificilmente se alcançará uma paz sólida e duradoura.
No contexto moçambicano, as recentes manifestações de protesto vieram a demonstrar que uma parte significativa da população deseja ser ouvida. O diálogo em curso só poderá corresponder às expectativas dos cidadãos se incluir todas as forças políticas e sociais com representação efectiva na sociedade. Nesse sentido, quer se concorde ou não com as suas posições, Venâncio Mondlane deve participar nesse processo, sob pena de o diálogo perder a legitimidade e a abrangência que dele se esperam.
Importa igualmente refletir sobre a postura das nossas elites dirigentes. Muitos responsáveis políticos recorrem aos melhores hospitais do estrangeiro para cuidar da sua saúde, enviam os filhos para estudar fora do país, o custo de vida sobe a cada dia de forma galopante… só para citar alguns exemplos. Esta realidade levanta uma questão legítima: até que ponto quem vive distante das dificuldades quotidianas do povo consegue compreender verdadeiramente as suas preocupações e dialogar de forma autêntica com as massas?
Estas reflexões encontram eco no pensamento do grande educador brasileiro Paulo Freire, na sua obra Pedagogia do Oprimido. Freire recorda-nos que o diálogo não é apenas uma conversa entre pessoas; é um encontro assente no amor, na humildade, na confiança e no reconhecimento da dignidade do outro. Não existe diálogo onde há arrogância, manipulação, exclusão ou ausência de esperança.
Como escreveu Paulo Freire: "Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na acção-reflexão." Esta frase sintetiza uma verdade atemporal: os povos constroem o seu futuro através da participação, da escuta mútua e do compromisso comum.
A história continua a ensinar-nos a mesma lição. Sempre que os homens escolhem as armas, multiplicam-se a destruição e o sofrimento. Sempre que escolhem o diálogo sincero, inclusivo e responsável, abrem-se caminhos para a paz, a reconciliação e o desenvolvimento.
Que Moçambique saiba aprender com a sua própria história e com a história do mundo. Porque a paz não se impõe pela força e pelo silenciar de quem pensa diferente; constrói-se diariamente através do diálogo, da confiança e do respeito mútuo.
Com a melhor das intenções!